Reféns do SE

Não é de se estranhar, pois os dias são de violência. A maré, como sabemos, não está pra peixe, já não podemos sair na rua despreocupados como antes. Nas manchetes dos jornais, as notícias apavorantes sobre os assaltos, seqüestros e assassinatos, fazem desanimar o mais otimista. Por isso não causou tanto espanto quando até mesmo palavrinhas com funções morfológicas multiplas  pudessem fazer alguém refém. Presenciaram a cena. Era meio-dia, em plena luz do sol, quando o SE surpreendeu a moça no ponto de ônibus:

­­­- Epa, paradinha ai no seu lugar, disse sem muita paciência o Se.

– Como é? Quem é você?, questionou a garota sem dar muito crédito as duas letrinhas que mesmo sendo pequenas pareciam bem fortes.

– Como você ousa seguir a vida sem mim?- disse Se indignado apontando um objeto  que parecia ser cortante para a menina. Logo pensaram que pudesse se tratar de um crime passional, vai saber… “Teria a garota de tênis allstar e óculos de grau abandonado as minúsculas letrasl”,questionaram.

– Mas o que é que ta acontecendo aqui? Eu não o conheço e não sei do que você está falando.

– De agora em diante exijo que me use em cada linha de pensamento, pois é um absurdo que você consiga seguir sua vida em frente sem questionar como as coisas teriam sido comigo.

– Meu senhor….Ela nem teve oportunidade de terminar  a frase e Se lhe interrompeu.

– Isso mesmo, nunca se perguntou como seria sua vida hoje SE tivesse ido com sua tia pra Europa naquela oportunidade única em 2002?

– Como você sabe disso? – Os olhos da menina se arregalaram. O ponto de ônibus ficava cada vez mais cheio e já não se prestava atenção que  ônibus havia chegado ou não. Curiosos, os populares  acompanhavam a discussão, mas ninguém se metia, pois se era mesmo uma discussão passional, vocês conhecem o ditado “Em briga de marido e mulher..”

– Pois é, hoje você poderia estar casada com Gonzales, um rapaz de família muito boa de Barcelona, mas… – A cara de Se era debochada enquanto dizia isso. Debochada seria a palavra? Era cínico mesmo.

– Não me arrependo de nada. Eu tinha os meus estudos aqui, priorizei ficar  e você nada tem com isso.

– E não é só isso. É  interessante como você consegue viver sem pensar como estaria hoje SE Paulo não tivesse terminado o noivado com você naquela noite de 2006.

Nessa hora todos notaram como o semblante da menina desmoronou. Os olhos caídos ficaram tristonhos e a audácia com que enfrentava Se foi diminuindo, diminuindo..Ele tinha tocado no ponto fraco da moça, era um golpe certeiro.

– Para falar verdade eu sempre pensei SE teria sido tudo diferente SE eu o tivesse encontrado em outro momento da minha vida ou mesmo SE eu fosse menos tímida e mais exuberante, coisa que Paulo sempre admirou nas mulheres- dizia a moça com voz murcha e em tom de confissão.

– Pois bem querida – disse Se chegando cada vez mais perto dela- é hora de considerar o passado e pensar como as coisas teriam sido SE isso e SE aquilo. Como você pode ter um sorriso no rosto sem considerar as possibilidades que passaram pela sua  mão? Sem mim, sem o SE em cada sentença, sem o SE em cada olhar sob o passado você nunca poderá pensar como teria sido, SE teria sido diferente.

Ele pegou nas mãos da moça e saíram andando os dois. Ele sorrindo e ela de cabeça baixa. A essa altura uma fila de ônibus se formava no ponto de ônibus e o trânsito estava engarrafado com as viaturas da polícia que chegavam ao local. Ao se depararem com a cena, os policiais fizeram pouco caso e conversavam entre si.

–  É só mais um refém do SE que anda seqüestrando gente por todos os lados. Mas só são levados reféns aqueles que assim o desejam. Não podemos nada fazer  – disse o policial ainda dentro da viatura.

O tumulto se desfez e  a vida voltou ao normal.

C.

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2 Responses to “Reféns do SE”


  1. 1 Jhônatas Cabral 7 junho, 2009 às 8:50 pm

    Memorável!!!

    A vida continua e nossa visão tende à limitação. Não carecemos da onisciência, mas insistimos em querer sempre “SEGURANÇA”. O Se é a morfina mais próxima quando a dor e/ou a incerteza aparecem, desistir é que faz mal aos sonhos.

    Beijos

  2. 2 Elianderson 9 junho, 2009 às 5:57 pm

    Nunca havia pensado assim, no quanto o SE pode nos deixar cabisbaixos, refém mesmo. Ótimo texto.


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