Muito mais do que a geração que dança

 

Essa semana fui num show cristão e fazia tempo que não ia em um. Não tenho mais a paciência de outrora e para me tirar de casa hoje em dia tem que ser alguma coisa bem bacana. Me senti adolescente de novo e me diverti vendo os jovens evangélicos que privados de  oportunidades para sair, se arrumar e  dançar fazem de um simples show num sábado qualquer um mega acontecimento. Enfim, mas o que me chamou atenção e me fez escrever hoje é a maneira como as lideranças evangélicas ainda tratam os jovens.

Uma cantora aqui, outra banda depois e uma palavra dos pastores para “aquietar” o facho da meninada. Sobe o pastor jovem no palco. “E ai, juventude do avivamento!!!???”, bradou o pastor em tom de animador de auditório. As palavras são sempre as mesmas. Parece que as únicas passagens da bíblia que podem ser compartilhadas com os jovens são (nessa ordem): Daniel e os amigos que não se contaminaram com a comida do rei, Davi contra Golias, Moisés aconselhando Josué, O texto de Salomão sobre lembrar-se do criador na mocidade e o texto em que João se refere aos jovens como fortes e afirma que eles já venceram o maligno. Nada além disso. Qual foi a palavra do pastor no show? “Jovem, eu nos escrevi porque sois fortes. Amém ou não amém??”

 As igrejas neopentescostais voltaram o olhar para os jovens e criaram dentro da sua programação alguns redutos, redes e cultos específicos em dias específicos da semana, geralmente aos sábados. A idéia é que a igreja passe a ser a nova “balada” e que ao invés de irem para a  boate ou coisa assim o jovem sinta o desejo de ir para igreja. O problema é que muitas vezes o clima de festa e todos os apetrechos para que a igreja pareça moderninha tomam o lugar da espiritualidade genuína que deve ser gerada em cada um dos jovens e adolescentes que freqüentam esses cultos. Palavra simples, comida mastigadinha dada pelos pastores e o resultado são jovens que não ousam questionar palavra alguma vinda de cima dos púlpitos. Gente que não aprendeu a caminhar sozinha com Deus, que não se aventurou no estudo dos valores do reino e que não atravessam a rua sem ter que consultar esses líderes. Prato cheio pra manipulação. Conveniente para líderes que crêem que assim não terão problemas com seus rebanhos. Contudo o problema é que esses jovens serão os adultos que vão ser levados por qualquer discurso eloqüente, que não saberão dizer o valor real de sua fé, que terão aversão e não saberão estabelecer um diálogo saudável com um ateu, por exemplo   e que irão enlouquecer ao se depararem com o primeiro erro desses líderes.

 Por que a abordagem da palavra ministrada aos jovens é sempre tão superficial? Por que os jovens são tratados como parte inferior desse evangelho? Por que para os pastores a única coisa importante é manter os jovens cristãos longe das drogas e da prostituição, como se nossa vida só fosse isso? E por que os jovens aceitam essa posição de serem figurantes? Por que se permitem serem tratados dessa maneira?. Queridos líderes e pastores: não nos tratem como idiotas.

 Uma coisa que não nos ensinaram dentro das nossas igrejas é a exercermos a crítica. Mas acreditem, sem questionamento não há encontro com a verdade. É o próprio apóstolo Paulo quem nos ensina isso. Ele mesmo pede para que sempre questionem o seu discurso e diz aos irmãos da igreja primitiva a não lhe darem ouvidos se encontrarem alguma conceito deturpado em suas palavras. É preciso termos um coração aberto e ensinável, mas que esse olhar que questiona e nos inspira em busca da verdade não deixe de nos acompanhar.

Ontem lembrei de uma canção do David Quilan que diz que “seremos a geração que dança por causa da Tua fidelidade, ó Deus”. Você quer mesmo ser o lembrado como alguém que faz parte da geração que dança? Que tem de mais nisso? Uma geração que se emociona em cultos de louvor e adoração, que curtiu nas baladas gospel. Obesos espirituais dentro das quatro paredes das igrejas? Eu quero ser lembrada como alguém que fez parte de uma geração que viveu o cristianismo puro e simples, que na visão crítica aumentou a sua fé, que entendeu que ser santo não é ser isolado  e que para cumprir o chamado percebeu que iria precisar do ímpio. Sim, do ímpio.

Eu quero ser bem mais do que a geração que dança,

C.

 

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3 Responses to “Muito mais do que a geração que dança”


  1. 1 luna 27 outubro, 2008 às 11:57 am

    Não sei exatamente onde vc foi, mas essa tb é minha tristeza, e pensar que eu sempre tento levar jovens a pensar, articular, criticar…mas é mais fácil trabalhar na política do Panis et Circenses do que realmente, dar condições de vida a esses jovens.
    Frase interessante do Filme coração valente, que assisti ontem pela enésima vez, e pela enésima vez chorei:
    “Todo homem morre, mas poucos sabem viver.” – William Wallace, na boca de Mel Gibson (claro que não sabemos se ele disse isso realmente, mas que a frase é contundente, isso ela é, e me fez refletir, o resultado disso, mais tarde no meu blog…rsrs)

  2. 2 jhonatascabral 28 outubro, 2008 às 9:29 pm

    Boa lembrança!!!(Também choro no final do filme quando o William Wallace ecoa a palavra: LIBERDAAAADEEEE)

    A VERDADE nos liberta, o problema é até que ponto podemos sair do rebanho?

    “Osho” certa vez escreveu que: “Mas isto certamente machuca milhões de pessoas que estão ao seu redor. Elas não podem aceitar a idéia de que você alcançou alguma coisa que elas perderam. Elas tentarão de toda maneira tornar você miserável, para destruir a sua dança, para tirar a sua alegria – de modo que você possa voltar novamente ao rebanho”.

    Eu também já não vou a muito “show gospel”, prefiro ficar em casa ouvindo uma música do Chico Buarque, Jorge Camargo… lendo Rubem Alves ou recitando poemas de Neruda a Deus, em forma de oração.

    bjs
    e continue acendendo as velas
    dessas salas escuras.

  3. 3 carloshleonel 29 outubro, 2008 às 12:19 pm

    Por que quando falam em pensar, questionar, posicionar-se…
    excluem emocionar-se com Deus?
    Por te conhecer mais de perto, sei que não é isso que você vive…não tem essa falta de emoção com Deus!

    Mas pelo texto parace que tudo o que se tem que fazer é questionar e o mundo se abre!
    Pra mim, apesar de ser um questionador nato, passar tempo com Deus…me emocionar em cultos que parecem ou realmente são superficiais…desde que seja uma emoção trazida por causa de Deus…é isso que me abre o mundo!

    Questionar me parou muitas vezes!
    Criou barreiras intelectuais que me impediram de ouvir a Deus!
    Uma coisa não exclui a outra![pensar e viver com Deus]
    Ele me deu cérebro pra usar mesmo, mas assim como o jardim do édem tinha partes “proibidas” parece haver pensamentos que são como o fruto proibido…vc pode pensar, mas alguns pensamentos podem te fazer sentir que é independente de Deus! E isso…NUNCA!
    Vc pode deixar de recorrer a Deus pra recorrer ao seu próprio poder de observação e crítica, ou ao seu “coração” como a Bíblia chama!
    O mesmo coração que a Bíblia diz ser enganoso, perverso, corrupto e outros adjetivos igualmente repugnantes e reprováveis.

    Eu, ao contrário, quero ser uma geração que dança…simplesmente por dançar? NUNCA!
    Mas porque eu consegui entender que se eu danço guiado por Deus…se eu me encontro com Deus…a minha mente consegue , enfim, alcançar os pensamentos de Deus que são mais altos que os meus e o egoísmo, a falta de compaixão, o sentimento de estar fora do mundo [pessoas], deixa de existir em mim, porque é assim que Deus é [amante maior do ser humano]! E nós nos tornamos iguais ao objeto de nossa adoração! E não a dança , mas a adoração que é motivo da dança, produz mudança em mim pelo encontro com Deus que acontece!

    E quanto a esses “shows” em que parece que Deus fica longe, longe… olhando e esperando por um momento em que as pessoas vão ,finalmente, fazer as coisas ali pra Ele…me cansei deles também!

    Em amor,

    C. H. Leonel

    P.S.: Epsero que me entenda! 😉


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Sou Cibele Tenório, jornalista (com diploma – para total escândalo de Gilmar Mendes), webaholic, mulher de fases. Seja bem vindo!

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