Coração na boca, peito aberto vou sangrando…

Existe no poder da arte, no poder da poesia e da música a força de nos vermos ali representados como se a  expressão do ser do outro fosse a nossa. Na identificação fazemos do momento íntimo de criação do outro a nossa música, o nosso filme, o poema que é a nossa cara. Porque o artista fala da alma, e por mais distintos e únicos que sejamos todos temos alma e se paramos um pouco temos a capacidade de discernir o que nela se passa. Por isso minha alma abatida encontra no abatimento do artista a força de se sentir representada, de se sentir  mostrada com exatidão.

 

Fui a João Pessoa nesse fim de semana (depois contarei o motivo dessa viagem e quem fui ver por lá). Seis longas horas dentro de um ônibus. Salva pelo mp3 fui ouvindo uma misturada só de sons e ritmos até que o meu playlist tocou Sangrando, canção do Gozaguinha. E se a arte representa nossa alma, fiz dessa canção meu pensamento, meu alento, meu grito.

 

Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando

Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando

Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo

Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção

E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar

 

Na canção, o artista conversa com alguém que lhe parece ser próximo Ele faz das suas palavras um desabafo e pede para ser compreendido, pois tudo que irá falar e expressar dali pra frente nada mais será que do que as lutas que ele mesmo passa, as lutas da sua gente. Sim, toda palavra que sair com uma força tanta da sua garganta será a representação exata de tudo que ele está vivendo. Ansioso com o coração na boca e as mãos que não hesitam em tremer, ardendo com o peito que sangra numa dor sem fim, o poeta não se cala, mas ergue a voz, puxando força de onde não tem para cantar. Antecipando o que pode lhe acontecer quando for tomado pela emoção daquela situação, quando o sal das lágrimas fazer seu sorriso mais aguado, ele clama pelo mínimo de compreensão, que o outro não se espante, mas ao menos ouça e cante, pois sem o outro, todo canto perde o sentido.

 

Por fim, diante de um ouvinte talvez não tão crédulo e resistente à sua voz, ele implora que o outro veja que suas palavras, seu canto, esse canto que fala das lutas da vida, do coração que sangra não espante, não assuste. Porque ao falar, ao cantar mesmo que sob lágrimas, o poeta ama. Sua expressão é sua forma de amar.

 

E ninguém duvide que comigo é diferente. Tudo, mas tudo que você ouvir esteja certo que estarei vivendo. Peito aberto sangrando, falarei das lutas dessa vida, mas ninguém se espante porque ao falar, eu vivo o amor. Por mais sangrento que ele seja.

C.

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1 Response to “Coração na boca, peito aberto vou sangrando…”


  1. 1 knesset 9 setembro, 2008 às 5:17 pm

    Essa é realmente uma obra de arte da nossa música, inspiração ímpar. Como bem diz minha mãe: “Gonzaguinha é um cara que morreu cedo demais”…


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