O poder de um blog

Yoani Sánchez usa a internet para relatar, com humor cáustico, os perrengues do cotidiano sob o regime cubano. Seu blog teve 4 milhões de acessos em um mês e ela acaba de ser eleita pela revista Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Mas em Cuba pouca gente sabe que a blogueira existe.

Quando decidiu lançar o blog Generación Y, em abril de 2007, Yoani Sánchez era uma desconhecida filóloga de 31 anos disposta a tornar públicos desabafos sobre seu cotidiano em Havana. Para se manifestar, ela recorreu ao único espaço ainda não regulamentado pelo governo da ilha: a internet. Batizou a página em alusão à geração de cubanos que, como ela, receberam nomes iniciados pela letra Y e cresceram em uma Cuba pós-revolução. E alcançou um resultado quase imediato. Carregados de críticas, os relatos pessoais da blogueira se alastraram pela rede.

Em março deste ano, o blog recebeu, segundo Yoani, 4 milhões de visitas, a maioria de cubanos radicados em países como Estados Unidos, Espanha e Itália, e virou fórum de acalorados debates (um post já incitou mais de 6 mil comentários). Em maio, ela foi apontada pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

‘Eu vivo uma vida real e outra virtual. A virtual é imensa. Não tenho idéia de até onde ela se estende’, disse Yoani em entrevista concedida em seu apartamento de 60 metros quadrados em um prédio malcuidado dos anos 80. Na casa onde ela mora com o marido, o jornalista Reinaldo Escobar, de 61 anos, e o filho, Teo, de 12 anos, não há internet. Os únicos sinais de tecnologia são um pendrive e um laptop quebrado. Badalada fora de Cuba, no próprio país a blogueira continua sendo a filóloga discreta e magra que se veste com uma camiseta desbotada e se mantém com traduções e visitas guiadas para turistas. Em um lugar onde a internet é restrita e todas as informações são oficiais, poucos conhecem a história de Yoani. E é sobre essa trajetória que ela fala a seguir:

Como surgiu a idéia de fazer um blog? Tudo começou em 2004, quando um grupo se reuniu para criar uma revista digital que, em um primeiro momento, se chamou Consenso e estava relacionada ao Arco Progressista, um partido de oposição moderada. A organização apoiou a revista até 2005, mas passamos a sentir que ela queria transformá-la em seu veículo de comunicação oficial. Então eu e Reinaldo (marido de Yoani) decidimos fazer um projeto independente, o DesdeCuba.com, que hoje é formado por seis pessoas. Meu blog foi um dos primeiros desse portal.
Por que você decidiu fazer o blog? Por vários motivos. Pelo fato de eu estar saturada com sentimentos como insatisfação e frustração. E, sobretudo, por constatar que os meios oficiais não refletiam minha realidade. Chegamos a um ponto em que não era possível continuar da mesma forma. Por outro lado, eu já sabia usar as ferramentas tecnológicas e entrei em contato com os blogs (Yoani morou na Suíça entre 2002 e 2004 e lá trabalhou no site de uma livraria). Pensei: tenho muito a dizer, mas isso não cabe na linha editorial de nenhuma publicação que conheço, nem mesmo DesdeCuba.com. Porque DesdeCuba.com é mais objetivo e eu queria fazer um exorcismo pessoal, a partir de uma óptica muito peculiar. Não queria fazer jornalismo, queria usar a primeira pessoa, referir-me à minha vida.

Mas por que a internet, se ela é tão complicada e cara para um cubano? Não fomos nós que decidimos fazer a revista na internet. O fato é que um cidadão normal em Cuba jamais terá acesso a alguns minutos de televisão nacional, alguns minutos na rádio ou algumas linhas nos jornais. Se em Cuba uma pessoa faz, imprime e distribui um pequeno jornal, é um delito que se chama propaganda inimiga, de acordo com o Código Penal. Não há leis que impeçam um cubano de colocar opiniões na internet.
Há pessoas afirmando que seu discurso ajuda a reforçar interesses políticos como os do governo norte-americano… Todos os fenômenos novos são passíveis de ser manipulados de um lado ou de outro. Não quero me proteger contra a manipulação. Podem usar meu discurso como quiserem, isso não vai mudar o que digo. Não escrevo para satisfazer os de Miami ou o Partido Comunista. Muitas pessoas dizem: você apenas escreve críticas. Mas a televisão, a rádio e os jornais já falam do que é positivo. Para que vou gastar meu tempo quando a imprensa oficial já se dedica a isso?

Você tem sido muito crítica em relação às regras do governo cubano. Há algo positivo no sistema? O mais positivo é que já sabemos qual não é o caminho. É ter vivido uma experiência que nos diz: por aqui não devemos seguir. Em geral as pessoas que vivem em Cuba acham que o sistema de educação deve ser mantido. Mas o certo é que, nos últimos 15 anos, a qualidade da educação se deteriorou muito. Não me sinto satisfeita com a educação que meu filho recebe. É medíocre, não fomenta a criatividade ou o debate. Na classe do meu filho há quatro fotos de Fidel Castro. Tudo está muito carregado com ideologia.
Qual é a sua Cuba ideal, então? O mundo ideal em Cuba não vai chegar tão cedo. Primeiro, porque a política tem gerado um preço social, político e antropológico. Perdemos muitas das tradições e valores. Leva tempo para construir uma nação fragmentada. A ilha ideal que chegará em 40 ou 50 anos precisa ser uma Cuba inclusiva, onde não existam linhas divisórias que separem um cubano do outro. Você não pode ser menos cubano porque vive fora do país ou menos cubano porque é turista. Uma Cuba ideal precisa ser plural, onde o que faço não constitua um delito ou uma traição. Onde ninguém seja acusado de ser agente do imperialismo por dizer o que pensa. E uma Cuba ideal precisa ser civil: Cuba está excessivamente militarizada.
Como a experiência na Suíça a influenciou? Fui para lá saturada dos problemas econômicos e da falta de liberdade no meu país. Saí de Cuba como turista e muitos amigos me ajudaram naquele país a encontrar um espaço. Mas a distância e a vida na Suíça me levaram a outra situação: a situação de migrante, de ter de começar do zero, é complicada. Refleti que talvez mudar as coisas no meu próprio país poderia ser melhor, afinal, para minha vida, para minha profissão. A Suíça me ajudou a recarregar as baterias. À distância, acreditamos que é possível fazer algo para mudar as coisas. Quando voltamos, chocamos contra o muro do imobilismo, da burocracia, do controle político. De qualquer forma, estou nesse processo agora: comprovando o quanto pode ser feito. Além disso, contava com internet 24 horas, o que permitiu perceber o vasto universo que representa a rede e as suas potencialidades criativas. Um dos pontos mais difíceis quando voltei para Cuba foi me acostumar com as limitações de acesso à internet.

Você tem sofrido algum tipo de censura ou repressão? Eles (o governo) não podem me expulsar do trabalho porque sou autônoma. Também não quero comprar um eletrodoméstico, estar três dias em um hotel, coisas que fazem com que muitos cubanos continuem se comportando bem. Não porque eu tenha renunciado ao conforto. Mas não quero pagar um preço político por ele. Nem mesmo o fato de não me deixarem sair do país foi desgastante para mim. Creio que isso foi a coisa mais forte que o governo fez até agora contra mim.

E como recebeu a notícia de que faz parte da lista das 100 pessoas mais influentes do mundo? Aqui em Cuba disseram que Evo Morales (presidente da Bolívia) estava na lista, mas nem mencionaram que havia uma cubana entre os indicados. Fiquei contente pelo reconhecimento, é um apoio a esse novo fenômeno da blogosfera cubana. Para fazer parte da lista, uma pessoa pode ter percorrido múltiplos caminhos, não necessariamente positivos. O que mais me gratifica é fazer parte dela como cidadã: fui incluída não por fazer parte de um partido ou ser uma artista. Faço parte dela porque decidi expressar o que penso.
O que mudou no seu cotidiano com a crescente popularidade? Eu vivo uma vida real e outra virtual. A virtual é imensa e não tenho idéia de até onde ela se estende. Não tenho idéia de tudo o que é dito sobre o meu blog. Recebo alguns ecos dessa outra vida. Às vezes me dizem: você saiu no Cambodia Daily. Na minha vida real, há coisas que têm mudado. Agora tenho menos tempo para a família. Os jornalistas têm me procurado com muita freqüência. Também tenho mais responsabilidade em fazer o blog porque quero manter esse fórum de debates. Mas algo mudou na visão que os outros têm de mim. Eu sempre fui uma pessoa bastante anônima, uma observadora da realidade. Agora as pessoas me notam.
Além de manter o blog, quais são seus planos? Tenho um projeto de escrever, de contar o que vejo na literatura. Vou seguir com o blog, sem datas-limite. No dia em que não quiser mais fazê-lo, vou deixá-lo. O que me interessa muito é a literatura e ajudar a blogosfera cubana, novos blogs que nascem na ilha.

 

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1 Response to “O poder de um blog”


  1. 1 carloshleonel 15 julho, 2008 às 3:40 am

    Influenciar tanta gente assim…
    ter um blog tão acompanhado…
    deve ser um sonho de todo blogueiro!
    hahaha

    e essa blogosfera???
    gostei da palavra! =D


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